É E NÃO É
É e não é
Edgar Vianna de Andrade
No
início dos anos 1970, assisti, no Coliseu dos Recreios, ao filme “A crônica de
Hellstrom” (1971). O Coliseu já se transformara num cinema “trash”, e o filme
me marcou profundamente. Ele aborda a vida real dos insetos e aracnídeos. Eles
não são nem bons nem ruins, assim como os vírus. Nunca mais assisti ao premiado
documentário, mas assisti a uma infinidade de filmes com insetos, aranhas e
outros invertebrados, assim como vertebrados desde os pequenos aos grandes. Grande
parte desses filmes é classificada como “trash”. Não se trata de um gênero,
como o drama e a comédia, mas de qualidade.
Sempre
tomando “Manos” (1966) como
referência, o pior filme de todos os tempos em todos os quesitos, um filme
“trash” carece de algum elemento. Pode ser um filme de baixo orçamento com
propósitos ambiciosos ou com propósitos simplórios. Pode ter um roteiro mal ou
bem escrito. Costuma apelar para o absurdo. Invertebrados gigantescos, como em
“O ataque das sanguessugas gigantes” (1959) ou vertebrados assassinos, como em
“O ataque dos roedores” (1959), dois filmes dos mais sofríveis, mas já
considerado clássicos “trash”. Mais que um filme B, o filme “trash” criou um
mundo próprio, com seus apreciadores. Quando me surpreendem assistindo a um
filme “trash”, perguntam-me como eu posso gostar daquele lixo. Sim, “trash” é
lixo em inglês. Eu também me pergunto qual será a postura de quem realmente
gosta de um filme desse tipo. Filmes com tubarões voadores, camisinhas e
vaginas que decepam pênis, pessoas ligadas por ânus e boca, aranhas que atacam
humanos intencional e prazerosamente etc.
O
filme “trash” pode também carecer de direção, mal desempenho dos artistas,
fotografia primária. Ou combinar: direção ruim com bom orçamento e fotografia;
boa direção com desempenho ruim. “A invasão das rãs (1972) “Mutação” (2001), “A
invasão” (2002), “Ratos” (2003) e “A praga” (2006) são sofríveis em todos os
quesitos. Quem manifesta interesse por esses filmes? Por que um estúdio investe
na produção deles? Onde são exibidos? Há retorno de bilheteria? Em nível
inferior, está “Baratas assassinas” (1998).
“Invasores”
(2001) é mais elaborado, mas com um roteiro mal resolvido. Os invasores vêm do
espaço. “O ataque das formigas” (2008) retrata a luta entre a inteligência
humana e a inteligência das formigas, bem mais elevada que a nossa segundo o
filme. As formigas tiveram seu território invadido e desejam exclusividade
sobre ele. “Aranhas assassinas” (2006) também se desenvolve nessa linha.
Péssimo em tudo. “Hospedeiros” (2000), ao contrário, mostra a invasão de uma
ilha por insetos mortais que podem se alastrar.
Num nível mais atraente está “Seres rastejantes” (2006), considerado um
dos filmes mais repugnantes de todos os tempos. Mas o “trash” mostra aqui um
lado relevante: a sátira, o exagero proposital, o riso do cinema sobre o
próprio cinema. Assim também é “Malditas aranhas” (2002), com Scarlett Johansson no seu 11° flme,
ainda com aparência de adolescente bonita. São filmes que não se levam a sério.
O verme rastejante e a aranha assassina provocam risos.
Propositalmente, só comentei os
filmes “trash” sobre seres não-humanos que podem ser vistos a olho nu. Neles,
costuma previsivelmente entrar em cena um quartero formado pelos animais
provenientes do espaço, de uma antiguidade pré-humana, de um território
invadido ou de uma experiência laboratorial deliberada ou não proposital. O
segundo elemento é um cientista brilhante, como se fosse o único no mundo,
geralmente dos Estados Unidos. Em terceiro lugar, um policial ou um militar que
se une ao cientista, sendo seu braço armado. É comum que formem um casal e
terminem o filme iniciando um romance. Por fim, um empresário inescrupuloso que
cria a situação ameaçadora para os humanos ou se beneficia delas. Conhecemos bem
essa polarização, sobretudo no Brasil.
Encerro o comentário com o filme
“Aracnofobia” (1990), que tem a marca de Steven Spielberg, um dos seus
produtores executivos: boa direção, boa fotografia, alto orçamento, bom
desempenho dos artistas e aranhas da Venezuela transportadas para uma pequena
cidade dos Estados Unidos. É comum os animais assumirem um caráter epidêmico ou
pandêmico potencial mas serem contidos num pequeno espaço. Mas toda a ficção
científica tem um pouco de “trash”. As aranhas parecem ter conciência e serem
más.
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